Veja todas as baixas da operação (entre mortos, feridos e desaparecidos)
No dia 6 de junho de 1944, cerca de 5,4 mil soldados perderam a vida num dos episódios mais importantes da 2ª Guerra Mundial. Foi o início do ataque de exércitos aliados a tropas alemãs na Normandia, litoral norte francês. Cerca de 6.900 navios, 5.500 aviões e 160 mil soldados (incluindo 13 mil paraquedistas) dos EUA, Grã-Bretanha e Canadá cruzaram o Canal da Mancha, vindos da Inglaterra, para iniciar a operação Overlord, cujo objetivo era expulsar os nazistas do oeste europeu. A campanha durou quase 90 dias e custou a morte de 445 mil pessoas (entre soldados e civis) até a chegada dos aliados a Paris, em agosto. A derrota na França acuou os exércitos de Hitler e encaminhou o fim da guerra.
Do céu ao inferno
Dentre as baixas aliadas, 1.200 delas foram de paraquedistas. Muitos deles, porém, podem ter caído longe do alvo, sumido por muito tempo e se juntado às tropas de novo
Saldo sangrento
Todas as baixas da operação (entre mortos, feridos e desaparecidos)
Ensaio desastrado
Nos treinamentos, simulações e locais “falsos” de saída da armada – criados para confundir os nazistas sobre por onde os aliados invadiriam o território francês – 12 mil perderam a vida entre abril e maio de 1944. A força aérea aliada perdeu 2 mil aeronaves durante as preparações
Aliados
EUA, Grã-Bretanha e Canadá tiveram 4.413 soldados mortos no Dia D. Foram 2.499 norte-americanos, 1.660 britânicos e 340 canadenses. Só na praia de codinome Omaha, uma das cinco escolhidas para o desembarque das tropas, houve 2 mil baixas para os EUA
Nazistas
Imagine um soldado aliado participando de uma operação para libertar outro país (França) defendido por soldados de uma terceira nacionalidade (alemã). A contagem de baixas inimigas não era uma prioridade para os invasores. Por isso, a estimativa de mortes nazistas foi de apenas 1.000
Civis
Entre 15 e 20 mil franceses são contados como baixas. A maioria deles morreu vítima de bombardeios na madrugada da invasão. Esse número também contabiliza os franceses que saíram de casa para escapar do conflito
Território marcado
Hoje existem 27 cemitérios de guerra na região da Normandia, com cerca de 110 mil mortos enterrados (não só do Dia D). O total de heróis conta com 77.866 alemães, 9.386 norte-americanos, 17.769 britânicos, 5.002 canadenses e 650 soldados poloneses
4.413 aliados
5.413 mortos
1.000 nazistas
Operação Overlord
Aliados – 209 mil baixas
Nazi – 216 mil baixas
FONTES Sites ddaymuseum.co.uk e nationalww2museum.org e livros Overlord – The D-Day Landings, de Ken Ford e Steven J. Zaloga, e Normandy – Breaching the Atlantic Wall, de Dominique François
O mundo estaria mais populoso, mais preconceituoso e menos avançado
Os rumos da humanidade seriam outros se o arquiduque da Áustria Franz Ferdinand não tivesse sido assassinado em Sarajevo em 28 de junho de 1914, há exatos 100 anos. Em primeiro lugar, a 2ª Guerra também não aconteceria, já que foram as penalidades da 1ª Guerra que deixaram a Alemanha na miséria e abriram caminho para a ascensão de Adolf Hitler. E esses dois eventos foram tão marcantes no século 20 que praticamente influenciaram todos os aspectos sociais, culturais, econômicos e políticos do mundo. Ou seja: sua vida hoje seria bem diferente!
A paz é um problema
O mundo estaria mais populoso, mais preconceituoso e menos avançado
Cada um no seu canto
Sem os dois conflitos, cerca de 80 milhões de vidas teriam sido poupadas. O mundo estaria ainda mais populoso. E, sem as consequências terríveis do nazismo expostas ao mundo, ainda haveria muitos simpatizantes da extrema direita conservadora. Resultado: mais racismo e menos imigrações tanto na Europa quanto no mundo
Uma corrida devagar
Sem os altos investimentos em tecnologia durante os conflitos (e na Guerra Fria que se seguiu), os avanços científicos teriam acontecido mais lentamente. O foguete V-2 do Exército alemão, por exemplo, acelerou a criação dos foguetes usados na Corrida Espacial. O homem só chegaria à Lua mais tarde, já no século 21
Menos, porém melhor
Outra consequência da superpopulação e do avanço científico lento: haveria menos comida para todos. Em um mundo com múltiplos polos de poder, o setor alimentício demoraria para ser industrializado, especialmente em países subdesenvolvidos. Mas seu prato teria mais alimentos frescos, produzidos localmente e com menos agrotóxicos
Lugar de mulher é na cozinha
Se você é menina, diga adeus à carreira. Você provavelmente seria dona de casa, já que as mulheres só começaram a conquistar o mercado de trabalho quando os homens estavam no front de batalha. E, sem os milhões de homens mortos nos conflitos, o feminismo e a revolução comportamental dos anos 60 também não teriam rolado
Mozart bombando
Sem a ameaça das guerras e do nazismo, vários grandes artistas permaneceriam na Europa, que manteria sua supremacia cultural. A influência norte-americana (especialmente a de Hollywood) seria menor. Nossa cultura seria menos pop e muito mais erudita. Você estaria mais acostumado a ir a concertos do que a shows de rock
Disputa de poder
A trajetória de diversos países também seria outra
EUA
Foram os grandes vencedores (e beneficiados) em ambos os conflitos. Depois deles, passaram a disputar a influência global com a URSS. Com a paz, viveríamos num mundo multipolar, onde a Alemanha e a Inglaterra também seriam potências (e rivais entre si)
Rússia
É provável que ainda se tornasse comunista – a população já estava insatisfeita com o czarismo antes da 1ª Guerra. Mas, como não teria conquistado a Europa Oriental após a 2ª Guerra, sua influência mundial seria menor e mais focada na Ásia
Brasil
Sem a pressão dos EUA para aderir aos aliados na 2ª Guerra, o rumo que Getúlio Vargas começou a tomar em 1937 seria mantido, talvez dando início a uma longa tradição de ditaduras no país. Os fascistas da Ação Integralista teriam mais espaço
Alemanha
Sem a crise financeira após a 1ª Guerra, o país dificilmente apoiaria Adolf Hitler. É possível até que não se tornasse uma democracia. Os kaisers continuariam no poder. Não seria um caso isolado: os impérios Austro-Húngaro e Otomano ainda existiriam
Índia e Egito
É possível que ambos ainda pertencessem à Inglaterra. Assim como outras colônias, eles só conseguiram a independência depois que o país que os controlava havia sido enfraquecido pelas guerras. A Palestina não teria se tornado Israel
FONTESThe Sleepwalkers, de Christopher Clark; 1913: In Search of The World Before The Great War, de Charles Emmerson; The First World War, de John Keegan
CONSULTORIA Richard Lebow, professor de teoria política internacional do King’s College, de Londres, e autor de Archduke Franz Ferdinand Lives!: A World without World War I
Foi uma investida feita por um cachalote enfurecido, no início do século 19, contra um navio baleeiro no meio do Pacífico. O cetáceo, de 26 metros, trombou violentamente duas vezes com a embarcação, apenas 1 metro maior do que o animal, até afundá-la de vez. Os marinheiros conseguiram escapar ao ataque, mas, após meses à deriva no mar, poucos sobreviveram – e isso após fazerem coisas inimagináveis para não morrer. Essa história acabou inspirando o escritor americano Herman Melville (1819-1891) a escrever um dos clássicos da literatura, Moby Dick. Veja como foi essa eletrizante vingança da caça!
Cetáceo vingador
Animal não deixou barato e afundou baleeiro que queria fisgá-lo
1. O baleeiro Essex deixou o porto de Nantucket, na costa de Massachusetts (EUA), em 1819, para uma expedição de caça no Pacífico Sul. Com 27 metros de comprimento e 238 toneladas, era liderado pelo capitão George Pollard Jr., de 28 anos, e levava a bordo outros 20 marujos
2. Em novembro de 1820, um ano após a partida, os marinheiros avistaram um grupo de baleias e já foram lançando seus arpões. Entre elas, estava um enorme cachalote de, estima-se, 26 metros e 80 toneladas. Com a cabeça cheia de cicatrizes, ele parecia não temer os caçadores
3. E não temia mesmo. Subitamente, o cetáceo vingador, que estava a 100 metros, sacudiu a cauda e nadou na direção do Essex, atingindo-o brutalmente na lateral. O barco balançou como se tivesse batido numa rocha, derrubando todos no chão
4. Após o primeiro choque, o cachalote enfurecido se distanciou uns 600 metros e mirou a embarcação de novo, espancando a água com a cauda. O animal então partiu como um míssil na direção do barco e deu o baque fatal. O Essex rachou e começou a afundar. A baleia desvencilhou-se das tábuas estraçalhadas e nadou para longe, sem nunca mais ser vista
5. Apavorados, os 21 homens embarcaram em três botes levando 65 galões de água e 100 quilos de biscoitos. Um mês depois, chegaram a uma ilha deserta, mas, pensando que não durariam muito ali, partiram em dois botes para tentar chegar à América do Sul. Três homens decidiram ficar
6. Os botes logo se perderam um do outro. No barco do capitão Pollard, os homens já padeciam de diarreia, desmaios e feridas por causa da dieta ruim. Sem água, eles passaram a beber o próprio xixi. Então, os mais fracos começaram a morrer. Os primeiros corpos foram jogados no mar, conforme a tradição naval
7. Porém, quando o rango acabou de vez, os náufragos se desesperaram. Para não morrer de fome, decidiram praticar canibalismo, se alimentando dos próprios companheiros mortos. Primeiro, cortavam a cabeça e, em seguida, devoravam o coração e o fígado
8. Algumas semanas se passaram e, como não houve mais baixas, os desesperados resolveram tomar uma decisão ainda mais extrema: tirar na sorte quem seria sacrificado para alimentar o grupo. O carrasco executor também foi sorteado
9. Finalmente, 95 dias após o ataque do cachalote, o bote do capitão Pollard foi resgatado por um barco. A essa altura, de tão desorientados, ele e o outro sobrevivente nem notaram a aproximação da embarcação salvadora – estavam roendo os ossos de um colega morto
• Dos 21 marujos, só oito sobreviveram: dois do bote do capitão, três do outro bote e três salvos da ilha. Dos 13 mortos, sete foram devorados pelos companheiros
• A força do impacto da baleia foi tão grande que equivaleria ao baque de um carro de 1 tonelada a 100 km/h!
Europeus, africanos e asiáticos se dedicam ao tema, mas pouco. O assunto geralmente é ensinado dentro da história da América Latina
Zé Carioca ainda é um porta-voz do Brasil. A animação da Disney Você Já Foi à Bahia? (1944), estrelada pelo papagaio, é muito usada na hora de introduzir o Brasil em salas de aula no exterior. “O desenho foi criado como parte da política de boa vizinhança”, diz Lise Sedrez, professora da UFRJ, que lecionou nos Estados Unidos. O destaque dado em classe depende das relações – históricas, culturais, comerciais etc. – entre os países. “Nos EUA, as escolas de ensino médio que ensinam português também tratam da história brasileira”, diz Lise. Lá, é comum escolas próximas a comunidades de brasileiros ensinarem essas disciplinas. Já o país historicamente mais ligado a nós, Portugal, não dá tanta importância ao tema (veja abaixo). Outros europeus, como Espanha, França e Reino Unido, encaixam o assunto na grade de história da América Latina. Historicamente, o Brasil ainda é periferia.
O passado brasileiro no mundo Temas e personagens nacionais estudados além das fronteiras
América Nos países latinos, o tema mais recorrente é Getúlio Vargas, que é discutido junto a seus pares populistas, como Juan Domingo Perón, na Argentina. Nos EUA, os assuntos mais comuns são colonização e escravidão.
Europa O tema é pouco discutido e aparece em subdivisões da disciplina que podem soar estranhas para nós, como história atlântica. Nem Portugal dá destaque. Lá, o Brasil é estudado junto com o finado império português.
África Embora alguns países africanos compartilhem conosco o colonizador e, consequentemente, a língua, eles não se aprofundam em nossa história. Angola e Moçambique, por exemplo, enfocam só a escravidão.
Ásia Há institutos específicos no Japão. Mas no Timor-Leste, ex-colônia de Portugal, é pior. Verônica Lima, da Universidade Nacional do país, diz que o maior contato com nossa cultura vem da música sertaneja. Ai, Se Eu te Pego é o novo Zé Carioca.
Fontes Demian de Melo e Lise Sedrez, professores de história da UFRJ; Koji Sasaki, professor da Universidade de Tóquio, Japão; Maicon Carrijo, pesquisador de história na USP; Verônica Lima, professora da Universidade Nacional do Timor-Leste.
O mundo perdeu nesta segunda-feira, 18, um de seus maiores e mais desconhecidos heróis. Stanislav Petrov, morto aos 77 anos, conseguiu reconhecer um erro técnico gravíssimo nos sistemas de monitoramento antiaéreo soviéticos, o que impediu que um alarme falso se transformasse em uma guerra nuclear total na década de 1980.
Petrov era coronel das forças de defesa aérea soviéticas no ano de 1983. No dia 23 de setembro, ele era o oficial responsável pelo Oko (palavra russa que significa “olho”), que era uma recém-instalada rede de satélites para alertar sobre lançamentos de mísseis nucleares. A ideia era simples: alertar os militares soviéticos sobre ataques nucleares americanos assim que as armas fossem lançadas, proporcionando tempo suficiente para reagir.
Naquela data, pouco depois da meia-noite, o Oko apontou que um único míssil havia sido disparado pelos Estados Unidos, o que por si só já gerou pânico. Petrov conta que, neste momento, ele levantou de sua cadeira e começou a dar ordens aos subordinados para que se acalmassem.
(Foto: Scott Peterson/Getty Images)
As coisas ficaram realmente sérias quando soou um segundo alarme apontando mais quatro disparos, enquanto a tela de Petrov ficava vermelha, mostrando apenas um botão para iniciar a reação.
Caso o sistema estivesse correto, as bombas atingiriam o território soviético em 30 minutos, de forma que, segundo o protocolo, ele só tinha 15 minutos para alertar o líder soviético Yuri Andropov, que estava doente, que decidiria sobre lançar outros mísseis balísticos intercontinentais como retribuição. Caso isso acontecesse, a Terceira Guerra Mundial começaria e a Terra provavelmente estaria condenada à destruição.
No entanto, suspeitando do baixo números de mísseis detectados pelo sistema soviético, Petrov se segurou na poltrona e não alertou Andropov. Desta forma, não houve retribuição ao ataque fictício, e a Terceira Guerra Mundial não aconteceu. Posteriormente, foi determinado que o alarme falso foi causado por reflexos solares em nuvens que sobrevoavam os Estados Unidos.
Conheça a trajetória do garoto de programa que atuava em um parque de São Paulo e amarrava e esfaqueava seus clientes
1) Fortunato Botton Neto (1967-1997) afirmava ter nascido na capital paulista e fugido de casa ainda criança. Viveu de esmolas na rua e alegou ter sido estuprado por um caminhoneiro quando tinha 8 anos. Foi daí que, segundo ele, teria surgido sua raiva incontrolável por pessoas fisicamente mais fortes.
2) No início dos anos 80, começou a atuar como garoto de programa nos arredores da av. Paulista. Um dos seus “pontos” era o parque Trianon. A aids estava no auge, havia muita homofobia e o envolvimento com drogas deixou Botton com problemas financeiros.
3) Em outubro de 1987, o corpo de um psiquiatra foi encontrado em seu apartamento pela empregada. Estava com pés e braços amarrados na cama, uma meia na boca, facadas no pescoço, tórax e abdômen e, segundo a autópsia, uma alta dose de álcool no sangue. Foi a primeira vítima de Botton, em busca de dinheiro.
4) Cinco assassinatos cometidos por ele foram investigados oficialmente entre 1987 e 1989. Os alvos eram clientes antigos e novos. Tinham entre 30 e 50 anos e, geralmente, moravam sozinhos. O maníaco agia sempre do mesmo modo: bebida para entorpecer, imobilização, estrangulamento e facadas.
5) O preconceito atrapalhou bastante as investigações. Como muitas das vítimas não eram assumidas, algumas famílias tentavam varrer o caso para debaixo do tapete. A própria polícia só foi se empenhar mesmo quando um investigador relacionou os diversos crimes, estabelecendo que se tratava de um serial killer.
6) Em busca de grana, o garoto de programa passou a chantagear um estudante, exigindo pagamentos periódicos para não revelar a sexualidade do rapaz. O jovem, porém, recorreu à polícia, que armou uma tocaia. Botton foi preso em flagrante, por extorsão, em junho de 1989.
7) A investigação já havia rendido à polícia o nome e a descrição do assassino. Além disso, ele deixara uma impressão digital no quarto da primeira vítima e usara o telefone dela para fazer uma ligação (posteriormente rastreada). Concluiu-se que Botton era o maníaco que buscavam.
QUE FIM LEVOU?
Botton confessou dez mortes, mas foi condenado a 8 anos de prisão só por cinco delas. Em 1997, ainda preso, morreu de broncopneumonia, decorrência da aids.
FONTES Sites VEJA e Serial Killer, livro Dias de Fúria, de Roldão Arruda, e documentário Instinto Assassino, do canal Discovery
Nobre, diplomata, militar, bem nascido. William Latimer era um sujeito da elite da Inglaterra medieval, desses que tiveram a sorte de chegar ao mundo filhos de barão. Mas não do tipo que esperava passivamente as benesses e pujanças que a vida lhe reservava.
Nascido em 1330 em Scampston, atualmente uma vila de 300 habitantes em North Yorkshire, Latimer foi para a França participar da Guerra dos Cem Anos, o grande conflito entre ingleses e franceses do qual brotaram Joana D’Arc e a centenária rixa entre os dois países. Aos 16, ele participou da Batalha de Crécy, uma das grandes vitórias inglesas no início da guerra. Depois, trabalhou em Calais, cidade portuária francesa atualmente mais lembrada pela “selva” de refugiados amontoados em acampamentos improvisados até 2016 do que pelo período em que foi dominada pelos monarcas ingleses — como consequência da batalha em que nosso amigo marcou presença.
Quem pode tem brasão. Mas quem disse que isso basta? (Reprodução/Reprodução)
Latimer virou cavaleiro, serviu na Gasconha, lutou na Batalha de Auray (1364) e voltou à Inglaterra para iniciar sua ascensão política. Agora quarto barão Latimer, ele teve altos cargos na Royal Household, organização de suporte à família real em atividades oficiais. De quebra, conseguiu levar o genro, John Neville, o terceiro barão Neville de Raby, na mesma bocada. Nepotismo nunca é demais, não é mesmo?
Ao longo da década de 1370, o barão era tido em alta conta na corte do rei, Eduardo III. A pretensão do monarca ao trono francês, além dos interesses comerciais na lã de Flandres (na atual Bélgica), território que na época pertencia aos franceses, foram o estopim da guerra, três décadas antes.
Latimer era querido, em particular, por outro duque, o de Lancaster, que tinha a providencial vantagem de ser filho de Eduardo III. Não o herdeiro do trono, mas o terceiro que chegou à idade adulta (ou seja, sem a pressão de se preparar para o trono, mas com todas as vantagens de ser, bem, filho do rei). João de Gante, como ficou conhecido depois de virar personagem da peça Ricardo II, de Shakespeare, foi um dos homens mais ricos de seu tempo. Nascido em Gent (ou Gante), em Flandres, João também era veterano da guerra — convenhamos, quando se vive na época de uma guerra de 116 anos, devia ser difícil alguém não ter alguma ligação com ela. Ele teve grande influência no reinado do pai e no do sobrinho, Ricardo II, que assumiu o trono aos 10 anos (e, justamente por isso, acabou inspirando Shakespeare).
João de Gante nunca foi rei, mas é ancestral de monarcas ingleses, espanhóis e portugueses (Domínio Público/Reprodução)
Foi com esse poderoso fazedor de monarcas que o barão Latimer se meteu. Antes um servidor dedicado à coroa, o barão agora passava tempo demais com João e o resto da turma, numa mistura de Onze Homens e Um Segredo com Robin Hood, sem a parte honrada da história.
Além de seu estimado genro, o barão Neville de Raby, havia um comerciante chamado Richard Lyons, sujeito com uma influência, digamos, meio a par das leis, meio aeciana, nas ruas de Londres. Entre tantos toma-lá-dá-cá, “tem que manter isso aí” e “tamo juntos”, ele chegou a ser eleito xerife da capital. Por fim, temos a amante do rei, Alice Perrers, dona de dezenas de propriedades ao redor do país, uma negociante astuta que usou as mínimas funções sociais permitidas a mulheres da época (como ser amante) a seu favor: em vez de apenas usufruir os mimos e torrar a grana que ganhava, transformava isso em renda.E gostava de ouro. Reza a lenda que ela teria surrupiado o anel do monarca de sua mão morta antes mesmo de o cadáver esfriar.
Alice Perrers e Eduardo III, na versão de Ford Madox Brown (1821-93). (Domínio Público/Reprodução)
Resumo da ópera do malandro: o reinado de Eduardo III foi uma beleza no começo, com vitórias sobre os franceses, um vistoso desenvolvimento militar e político, com um Parlamento em evolução e instituições mais respeitadas. Mas, no fim de seus 50 anos de trono, a corte estava podre, naufragada em corrupção – boa parte dela praticada pela turma do barão.
Em 1376, o Parlamento precisou tomar uma iniciativa. Latimer, Neville, Lyons e Perrers foram julgados. Ela foi banida do reino e perdeu suas propriedades. Latimer e Lyons conseguiram o nada honrado feito de serem os primeiros homens a sofrerem impeachment na história do país. Lyons foi destituído dos cargos que ocupava na Casa da Moeda e no Conselho Real, e se mudou para a prisão da Torre de Londres.
A sensação de justiça foi tão plena que a câmara, naquele ano, ficou conhecida como o Bom Parlamento. Naquele mês de maio, a sociedade sorria, satisfeita, com o fim da corrupção.
Isso sim que é tríplex: o castelo que Latimer vendeu aos inimigos franceses (Divulgação/Divulgação)
Mas não durou muito. Seis meses depois, Latimer foi perdoado. No ano seguinte, o rei morreu e João de Gante usou sua influência. Conseguiu liberar Lyons, que já em 1380 foi eleito para o mesmo Parlamento que o condenara três anos antes. Latimer também se safou: voltou a Calais, agora como governador.
Fim.
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PS.: Em 1381, na Revolta Camponesa de Londres, Lyons foi decapitado. Sua cabeça foi carregada e exibida pela cidade em um poste.
Um dos principais mecanismos utilizados pela Operação Lava Jato, a delação premiada tem origens nos tempos da Idade Média. Os registros vêm desde a época da Inquisição, quando a Igreja Católica perseguiu praticantes de outras religiões, que eram considerados hereges.
Além das denúncias, que podiam ter como base rumores ou acusações públicas, o sistema inquisitório dava extrema importância para a confissão do acusado, que podia ser alcançada por meio de uma promessa de recompensa ou até mesmo pelo uso da tortura. Quem delatava sob tortura, inclusive, era bem visto pela sociedade.
“Na Inquisição, a ideia era de que o autor do crime era inimigo do inquisidor, portanto ele podia usar todos os poderes para obter uma confissão, inclusive utilizando tortura”, explica Gustavo Badaró, professor de Processo Penal da Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo).
Para Badaró, o conceito moderno da delação premiada –que é o utilizado na Lava Jato– tem “uma clara inspiração inquisitória ao utilizar o autor do crime para provar a ocorrência do delito cometido por ele e seus comparsas”. “Na verdade, a delação da Lava Jato é algo vintage”, brinca Badaró.
“Havia [na Inquisição] uma pressão psicológica. A pessoa sabia que, se não contasse algo que interessasse ao inquisidor, ela corria riscos –como queimar na fogueira, inclusive”, destaca o professor. E hoje, a delação é feita nesse mesmo contexto? Para Badaró, existe uma “tortura moderna, uma tortura psicológica” por trás da relação existente entre prisões cautelares e a confissão por meio da delação.
“Esse é um problema sério –caso de pessoas que estavam presas, fizeram inúmeros pedidos de liberdade provisória e assim que acenam a possibilidade de firmar um acordo de delação premiada são postas em liberdade”, defende o professor. É esse o caso, por exemplo, do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, que deixou a cadeia em 2016, após passar um ano e meio em cárcere.
As delações na História No Brasil, segundo Badaró, o primeiro registro oficial do conceito que conhecemos hoje como delação premiada é de 1603, nas Ordenações Filipinas, conjunto de leis espanholas que vigorou em terras brasileiras durante o período da União Ibérica.
Estava previsto nessas leis o crime de lesa-majestade, descrito como “traição cometida contra a pessoa do Rei, ou seu Real Estado”. Existia também o perdão ao delator, como descreve o texto: “por isso [delação] lhe deve ser feita mercê [favor, benefício], segundo o caso merecer, se ele não foi o principal tratador desse conselho e confederação” –ou seja, caso o delator não fosse o líder do movimento conspiratório.
Badaró explica que foi dessa lei que se valeu o coronel Joaquim Silvério dos Reis, que estava endividado com a Coroa e decidiu delatar os inconfidentes mineiros para ter sua dívida perdoada.
“Além de não ser punido com a pena de morte, dois anos depois foi a Lisboa e recebeu o foro de fidalgo da Casa Real, além de uma pensão anual de quatrocentos mil réis”, conta o professor.
Outros registros importantes aparecem já nos anos 90, com as leis dos Crimes Hediondos, dos Crimes Contra Ordens Tributárias e a Lei de Lavagem de Dinheiro.
“[Essas leis] que tratavam da delação premiada se limitavam ao benefício, à redução da pena, que ao final do processo o juiz podia aplicar a quem delatou”, ressalta Badaró, destacando que não havia um consenso sobre qual procedimento deveria ser seguido pelas duas partes –o delator e o Ministério Público.
Isso mudou apenas em 2013, com a Lei 12.850, que definiu as organizações criminosas e mudou a regulamentação dos acordos de delação.
“Houve maior amplitude desse procedimento e maior liberdade de negociação. Se antes só se falava em redução de pena, agora se fala da possibilidade de aplicação de regimes diversos. Além disso, agora existe o pré-acordo e a necessidade da homologação”, afirma Alamiro Velludo, professor de Direito Penal da Faculdade de Direito da USP.
Essas mudanças, segundo ambos os professores, dão mais segurança para que tanto o delator quanto o Ministério Público possam fazer uso da delação premiada.
A figura de Jesus Cristo é bastante popular mesmo entre aqueles que não são religiosos. Entretanto, sua existência pode ser tanto um mito da Igreja para reafirmar seus valores quanto algo que realmente aconteceu. A resposta para isso, porém, depende apenas da sua fé. Agora, vários pesquisadores e religiosos tentam buscar evidências concretas da (possível) passagem de Cristo pela Terra. Será que tem como?
Um dos maiores entusiastas no assunto é o arqueólogo búlgaro Kasimir Popkonstantinov. Em 2010, ele descobriu uma caixinha que ele acredita conter os ossos de ninguém menos que São João Batista, um dos mais importantes santos da igreja cristã. Outra urna, encontrada ao lado desse relicário, continha a inscrição “Que Deus te salve, servo Tomé. Para São João”. A descoberta é importantíssima, já que João Batista foi um dos primeiros seguidores de Cristo e, além disso, era seu PRIMO. Logo, eles certamente compartilhavam características do DNA.
Popkonstantinov escavava os restos de uma igreja do século VI, na ilha de Sveti Ivan, no Mar Morto, que havia sido construída sobre uma basílica do século anterior. Ao vasculhar a área do altar, o pesquisador encontrou um pequeno relicário de mármore com os possíveis restos do santo. Durante o século V, as igrejas só eram consideradas sagradas se guardassem a relíquia de algum santo ou religioso fervoroso.
Kasimir Popkonstantinov mostra relicário que conteria ossos de São João Batista
Dúvidas e problemasO sequenciamento do código genético em fragmentos de ossos muito antigos ainda está começando a acontecer. Porém, mesmo que o DNA pudesse ser determinado no achado de Popkonstantinov, quem garante que o relicário pertenceu realmente a São João Batista? E como isso comprovaria a existência de Cristo?
Outro problema é que o DNA ideal necessitaria não ter tido contato com o de nenhuma outra pessoa – o de um osso enterrado no solo, por exemplo. No caso desse relicário, é muito provável que vestígios de quem manuseou os ossos para colocá-los na caixinha possam ter se misturado ao próprio DNA dos fragmentos ósseos, gerando dúvidas quanto a sua legitimidade.
Atualmente, é possível distinguir e retirar vestígios contaminantes, mas é bem mais difícil, principalmente porque o DNA se degrada com o tempo. Também é possível tentar mapear o genoma de dentro dos fragmentos ósseos, onde seria mais difícil uma influência de fatores externos.
Relicário foi achado em ruínas de igreja do século VI
DNA e arqueologia A arqueologia está começando a usar o sequenciamento genético em seus estudos. George Busby, pesquisador e geneticista da Universidade de Oxford que acompanhou as buscas de Popkonstantinov, acredita que o DNA pode influenciar de duas maneiras: através da comparação dos DNA de diferentes relíquias e do rastreamento de suas origens geográficas.
Por exemplo: se outro artefato for encontrado como supostamente pertencente a São João Batista, seria possível comparar as duas amostras de DNA e ver se elas possuem semelhanças. O mesmo aconteceria caso fossem encontrados objetos que tivessem pertencido a Jesus Cristo, já que ambos eram primos.
Até agora, os ossos achados por Popkonstantinov foram datados com aproximadamente 2 mil anos através de carbono-14 – algo animador para a pesquisa. Já a análise de DNA se mostrou muito semelhante à dos habitantes atuais do Oriente Médio, indicando uma possível contaminação do material original.
Sequenciamento de DNA encontrado em relicário mostra uma possível contaminação por quem manuseou o artefato
Nem tudo está perdido Geneticistas já encontraram diversos traços diferentes de DNA no Santo Sudário, que supostamente cobriu Jesus Cristo após sua crucificação. Também está em processo de sequenciamento genético o material encontrado no ossuário de Tiago, que muita gente acredita ter guardado os ossos do irmão de Cristo.
Caso seja possível mapear todas essas amostras e compará-las futuramente, poderíamos, quem sabe, traçar um paralelo entre todas essas relíquias e também entre potenciais descendentes dessas pessoas. Além, é claro, de determinarmos o DNA da família de Cristo e, quem sabe, dele próprio! Resta-nos esperar para crer ver.
Frágil, intrigante e cheio de surpresas: item 15.087 do Museu Arqueológico Nacional em Atenas
Se não fosse uma forte tempestade na ilha grega de Anticítera (ou originalmente, Antikythera), há mais de um século, um dos objetos mais desconcertantes e complexos do mundo antigo muito provavelmente jamais teria sido descoberto.
Após buscar abrigo na ilha, um grupo de catadores de esponjas marinhas decidiu tentar a sorte naquelas águas. Eles acabaram encontrando os restos de uma galé romana que havia naufragado havia dois mil anos, quando o Império Romano começou a conquistar as colônias gregas no Mediterrâneo.
Nas areias do fundo do mar, a 42 metros de profundidade, estavam itens de grande valor. De início, as peças, danificadas após anos no mar, ficaram esquecidas. Mas em seguida um olhar mais atento mostrou que eram objetos feitos com esmero, engrenagens talhadas à mão.
Image captionUm tesouro no fundo do MediterrâneoImage captionObras incomparáveis que sobreviveram aos saques feitos por romanos e à ação da água
Entre belas estátuas de cobre e mármore, estava o objeto mais intrigante da história da tecnologia. Trata-se de um instrumento de bronze corroído, do tamanho de um laptop moderno, feito há 2 mil anos, na Grécia antiga. É conhecido como máquina (ou mecanismo) de Anticítera.
"Se não tivessem descoberto a máquina, ninguém teria imaginado, ou nem mesmo acreditado, que algo assim existisse, pois é muito sofisticada", disse à BBC o matemático Tony Freeth, da Universidade de Cardiff. "É um mecanismo de genialidade surpreendente".
Há divergências sobre a data exata da descoberta, mas isto teria ocorrido entre 1900 e 1902.
Image captionNo começo o artefato não dizia nada aos cientistas, mas eles logo notaram que as peças traziam marcas e inscrições
"Imagine: alguém, em algum lugar da Grécia antiga, fez um computador mecânico", afirma o físico grego Yanis Bitzakis.
Ambos integram a equipe internacional que investigava o artefato. E eles não estão exagerando nas descrições. Levou cerca de 1,5 mil anos até que algo parecido com a máquina de Anticítera voltasse a aparecer, na forma dos primeiros relógios mecânicos astronômicos, na Europa.
Vanguarda
Em 1950, o físico inglês Derek John de Solla Price foi o primeiro a analisar em detalhes os 82 fragmentos recuperados. Anos depois, em 1971, juntamente com o físico nuclear grego Charalampos Karakalos, foram feitas imagens das peças com raios-X e raios gama, que mostraram como o mecanismo era complexo: com 27 rodas de engrenagem no seu interior.
Image captionA primeira surpresa: o mecanismo era formado por 27 engrenagens
Os especialistas conseguiram datar algumas outras peças com precisão, entre os anos 70 a.C. e 50 a.C. Mas um objeto tão extraordinário não podia ser daquela época, pensavam os especialistas. Talvez fosse mais moderno e tivesse caído no mesmo local por casualidade.
"Se cientistas gregos antigos podiam produzir esses sistemas de engrenagens há dois milênios, toda a história da tecnologia do Ocidente teria que ser reescrita", diz o matemático Freeth.
Image captionNúmeros que começaram a surgir coincidiam com os conhecimentos dos gregos da época
127 e 235 dentes
Solla Price deduziu que contar os dentes em cada roda poderia fornecer pistas sobre as funções da máquina. Ele, então, chegou a dois números que fazem sentido na astronomia: 127 e 235.
"Esses dois números eram muito importantes na Grécia antiga", diz o astrônomo Mike Edmunds.
Os gregos sabiam como os corpos celestes se moviam no espaço, podiam calcular suas distâncias da Terra e a geometria de suas órbitas.
Os 19 anos solares são exatamente 235 meses lunares, o chamado ciclo Metônico - um dos números encontrados no artefato. Já o outro número, 127, mostrava as revoluções (ou movimentos elípticos) da Lua ao redor da Terra.
Seria possível que os gregos antigos estivessem usando a máquina para seguir o movimento da Lua?
Image captionAs contas não fechavam se apenas um ano solar fosse levado em conta, mas em um ciclo de 19 anos...
As fases da Lua eram extremamente úteis na época dos gregos antigos. Com base nelas, determinavam-se épocas de plantio, estratégias de batalha, festas religiosas, momentos de pagar dívidas e autorizações para viagens noturnas.
Price desvendou o artefato após 20 anos de intensas pesquisas, mas ainda havia peças do quebra-cabeça por encaixar.
Image captionEngrenagens identificadas pelos cientistas não estavam encaixadas, e montar o quebra-cabeças demandou muito trabalho
O futuro 223
O passo seguinte demandou tecnologia sob encomenda. A equipe dedicada a estudar a máquina convenceu o engenheiro de raios-X Roger Hadland a criar um equipamento especial para fazer imagens do mecanismo. Com isso, encontraram outro número chave: 223 era o número de outra roda do mecanismo.
Por volta de 600 a.C., astrônomos babilônios antigos descobriram o ciclo de Saros, no qual a Lua e a Terra voltavam a se encontrar a cada período de 223 luas (18 meses e 11 dias), o que prevê a ocorrência de eclipses.
A máquina de Anticítera, portanto, podia prever eclipses. Não apenas o dia, mas a hora, direção da sombra e cor com a qual a Lua apareceria.
Image captionGraças a milhões de tabelas com dados históricos que arquivaram ao longo do tempo, babilônios encontraram o padrão dos eclipses
"Quando havia um eclipse lunar, o rei babilônio deixava o posto e um substituto assumia o poder, de modo que os maus agouros fossem para ele. Logo o substituto era morto e o rei voltava a assumir sua posição", conta John Steele, especialista sobre a Babilônia no Museu Britânico.
Image captionInformações sobre eclipses que pesquisadores encontraram na máquina de Anticítera são surpreendentemente sofisticadas
Tudo dependia da Lua
Os pesquisadores chegaram a mais uma maravilha.
O ciclo Saros depende do padrão da Lua, mas "nada sobre a Lua é simples", diz Freeth.
"A Lua tem a órbita elíptica, assim ela viaja mais rapidamente quando está mais perto da Terra", exemplifica.
Podia então a máquina de Anticítera rastrear o caminho flutuante da Lua?
Image captionUm mecanismo complexo para desvendar os caprichos da Lua
Sim, podia: duas engrenagens menores, uma delas com uma pinça para regular a velocidade de rotação, replicavam com precisão o tempo da trajetória que o satélite natural executa ao redor da Terra; e outra, com 26 dentes e meio, computava o deslocamento dessa órbita.
Ao examinar a parte frontal do aparelho, os investigadores concluíram que ele demonstrava como os gregos entendiam o Universo naquele momento: a Terra no centro e cinco planetas ao redor.
Image captionO movimento dos cinco planetas que podiam ser vistos a olho nu: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno
"Era uma ideia extraordinária: pegar teorias científicas da época e mecanizá-las para ver o que aconteceria dias, meses e décadas depois", diz o matemático.
Mais um enigma
"Essencialmente, foi a primeira vez que a raça humana criou um computador", acrescenta Freeth. "É incrível como um cientista daquela época descobriu como usar engrenagens para rastrear os complexos movimentos da Lula e dos planetas".
Mas quem foi esse cientista?
Uma pista estava em outra função da máquina.
O aparelho também previa a data exata dos Jogos Pan-Helênicos: quatro festivais separados que se realizavam periodicamente na Grécia Antiga: Jogos Olímpicos, ou de Olímpia, Jogos Píticos, Jogos Ístmicos e Jogos Nemeus.
O curioso é que embora os Jogos de Olímpia tivessem mais prestígio, os Jogos Ístmicos, em Corinto, apareciam em letras maiores.
Image captionChamava a atenção o destaque aos jogos que eram celebrados no istmo de Corinto a cada dois anos, em homenagem a Poseidon, deus grego do mar
Os investigadores já tinham notado que os nomes dos meses que apareciam em outra engrenagem da máquina eram coríntios.
As evidências sugeriam que o criador da máquina era um coríntio que vivia na colônia mais rica governada pela cidade: Siracusa.
Siracusa era lar do mais brilhante dos matemáticos e engenheiros gregos: Arquimedes.
Trata-se, talvez, do cientista mais importante da Antiguidade clássica, que determinou a distância da Terra à Lua, descobriu como calcular o volume de uma esfera, o número fundamental π (Pi) e havia garantido que moveria o mundo com apenas uma alavanca.
"Só um matemático brilhante como Arquimedes poderia ter desenhado a máquina de Anticítera", opina Freeth.
Direito de imagemGETTY IMAGESImage caption"Dê-me um ponto de apoio e moverei o mundo"
Sabe-se que Arquimedes estava em Siracusa quando os romanos conquistaram a cidade, e que o general Marco Claudio Marcelo havia ordenado que o cientista não fosse morto, mas um soldado acabou assassinando-o.
Siracusa foi saqueada e seus tesouros foram enviados a Roma. O general Marcelo levou consigo duas peças - ambas, diziam, eram de Arquimedes. Os investigadores acreditam que fossem versões anteriores da máquina.
Um indício está em uma descrição que o orador Cícero fez, séculos depois, de uma das máquinas que ele observou de Arquimedes:
"Arquimedes encontrou a maneira de representar com precisão, em apenas um aparato, os variados e divergentes movimentos dos cinco planetas com suas distintas velocidades, de modo que o mesmo eclipse ocorre no globo (planetário) e na realidade".
Image captionCícero descreveu um planetário semelhante ao da máquina de Anticítera
Mas o que aconteceu com a brilhante tecnologia da máquina? Por que ela se perdeu?
Como tantas outras coisas, com a queda da civilização grega e, mais tarde, da romana, os conhecimentos "imigraram" para o Oriente, onde foram mantidos por bizantinos e árabes eruditos.
O segundo artefato com engrenagens de bronze mais antigo é do século 5 e tem inscrições em árabe.
E no século 8, os mouros levaram esses conhecimentos de volta à Europa.
Image captionTodas as peças para introduzir os conhecimentos em uma só máquina
Investigações anteriores apontaram que a máquina estava dentro de uma caixa de madeira que não sobreviveu ao tempo.
Uma caixa que continha todo o conhecimento do planeta, tempo, espaço e Universo.
"É um pouco intimidador saber que, logo antes da queda de sua grande civilização, os gregos antigos tinham chegado tão perto de nossa era, não apenas em pensamento, mas na tecnologia científica", disse Derek J. de Solla Price.
Image captionMáquina revela o incrível desenvolvimento tecnológico da Grécia Antiga
O texto foi originalmente publicado no dia 3 de julho de 2016 e atualizada no dia 17 de maio de 2017.